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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

A vida invisível de Eurídice Gusmão | Estante

Nome: A vida invisível de Eurídice Gusmão.
Autora: Martha Batalha.
Editora: Companhia das letras.
Classificação: 

Páginas: 192 páginas.
Onde encontrar: Amazon



Enquanto trabalhava nas receitas ela tinha certeza de que estava fazendo algo de valor, mas na frente do marido tudo perdia o sentido.


Sinopse: A vida em 1940, especialmente para mulheres eram bem diferentes de hoje, já que as aspirações de suas famílias para as mesmas se resumiam em que encontrassem um bom marido e fossem excelentes donas de casa. Com as irmãs Gusmão não era diferente, mas Guida teve um destino muito diferente ao de Eurídice sua irmã mais nova, pois enquanto uma desbravou o destino fugindo de casa a outar tornou-se uma dona de casa exemplar, mas vida pregou muitas peças nas irmãs Gusmão que mesmo separadas buscaram sempre o caminho de volta uma para outra.

Uma família classe média nos anos vinte, criando duas jovens sempre muito inquietas deixaram seus pais preocupados sobre as aspirações de vida e o que elas iriam se tornar. Inteligente, sagaz e talentosa. A filha mais nova dos Gusmão, Eurídice, poderia ter se tornado escritora, média ou até mesmo engenheira, mas atmosfera machista e classista dos anos vinte roubou todas as aspirações da jovem mulher retirando seu poder de escolha, transformando-a em uma dona de casa.

Ainda jovem, tenta conhecer outros caminhos tocando flauta chegando até a ser convidada para tocar numa Orquestra, mas logo sofre com a rejeição dos pais que acreditam não ser aquele o caminho de uma moça de família para ter um bom marido. Depois de casada, ela tenta desbragar outros caminhos e se encontrar, na cozinha ela começa a desbravar outros caminhos com seu pequeno caderninho de receitas de capa preta, logo é interceptada pelo marido que diz que ninguém compra um livro de receitas feito por uma dona de casa. Ela desiste, mas a jovem mulher inquieta não consegue ficar parada e dá rumo a outras ideias, porém ao tentar colocar em prática sempre acaba sendo frustada pelo marido.

Tentando escrever com outras linhas seu destino, Eurídice se vê perdida, sem rumo, já não consegue mais pôr nada em prática. Um dia descobre uma prateleira de livros e dando de cara com tantos autores, tais como: Antonio Candido, Caio Padro Jr , Virginia Woolf, Jane Austen, George Eliot e Lima Barret, desbrava a litura como seu único alimento, tendo como companhia sua máquina de escrever e  muitas ideias. 


Minhas impressões:
A inquietude de Eurídice como mulher e personagem é o que prende de fato o leitor as páginas do livros para saber o que vai acontecer. A história se passa dos anos vinte em diante, narrando cuidadosamente a historia das irmãs Gusmão sobre seus diferentes destinos e de como se perder fez com que as duas se encontrassem em meio as linhas tortas do destino.  Todas as violências acometidas as mulheres narradas por Martha acontecem até hoje e é justamente isso que fez como que me questione até onde avançamos como mulheres? o que de fato conquistamos, se isso ainda acontece? 

Entre os paradigmas de uma dona de casa e de jovem inquieta, a história da irmã mais nova nos mostra como ainda somos invisíveis e apesar de alguns marcos e avanços talvez ainda não tenhamos conquistado tanto como mulheres. E foi este o paradoxo que a autora deixou em minha mente depois que terminei de ler o livro numa madrugada. A invisibilidade de Eurídice ainda nos afeta ou ela só foi mascarada? Como o racismo, violência e o machismo (evidente e ainda presente) na sociedade carioca perpassa por todas as camadas desde a da família classe média até as camadas sociais mais pobres e menos privilégiadas que nos cercam?

A inquietude de Eurídice é fato um problema ou uma mulher que pense afrente de seu tempo e queria desbravar outros caminhos é uma ameaça? Perguntas facilmente respondidas numa análise a leitura deste livro, Martha nos presenteia com uma bela narrativa, mas com histórias tão difíceis de engolir e intragáveis em alguns momentos por não estramos tão distante quanto gostaríamos dessa realidade.

Citações favoritas:

Sozinha na cama, corpo escondido sob o cobertor, Eurídice chorava baixinho pelos vagabunda que ouviu, pelos vagabunda que a rua inteira ouviu. E porque tinha doído, primeiro entre as pernas e depois no coração.

Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras “Do lar”.

Cecília veio ao mundo nove meses e dois dias depois das bodas. Era uma bebê risonha e gordinha, recebida com festa pela família, que repetia: É linda! Afonso veio ao mundo no ano seguinte. Era um bebê risonho e gordinho, recebido com festa pela família, que repetia: É homem!

Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.

“É para você escrever o que pensa do mundo”,

O segundo é que quando Zélia escrevia se transformava em uma das mulheres mais interessantes de seu tempo.

Enquanto trabalhava nas receitas ela tinha certeza de que estava fazendo algo de valor, mas na frente do marido tudo perdia o sentido.

D. Maricotinha, no entanto, não achava a vida uma dádiva. Achava a vida um absurdo.

Quando tocava existiam apenas ela e a flauta, e aquele era um mundo perfeito, por ser um mundo pequeno.

Mostrando para Eurídice que havia um mundo mais cruel do lado de fora do que aquele que tinha construído por dentro.

Fugir era que nem morrer, só que pior, porque na morte a pessoa vai embora sem saber, e não pode se despedir. Mas na fuga a pessoa sabe que está indo embora, e nem se importa em dizer adeus.

Às vezes a gente acha que está fazendo tudo certo, mas quando se dá conta descobre que estava com os olhos tapados e não consegue acertar de jeito nenhum.”

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Todas as razões para assistir depois de um término (contém spoiler?) | Manteiga de cinema


Imagem: Adorocinema

Bom, se você está procurando um filme onde vai encontrar aquela sensação de filmes românticos onde o casal fica juntos e tem seu final de felizes para sempre, não é esse.


Antonio é aquele cara que para ele sempre está tudo “ok” e não liga muito de se mover para mudar, mas quando Sofia, que era sua namorada, resolve terminar o relacionamento, ele se vê na posição de que nem tudo está “ok” e que admitir para si mesmo é complicado, mas quem nunca depois de um relacionamento ficou se perguntando quem foi que errou? Dificilmente se consegue admitir os próprios erros, mas a questão é todo esse processo de admitir para si mesmo que sair da zona de conforto vai doer demais e vai ser necessário colocar a cara a tapa. 


Imagem: quinquilharia


O roteiro e a direção foram feitas por Pedro Coutinho, e eu gosto de ver produções como essa, sensíveis, produzidas por homens, porque quebra aquele estereótipo que eles não têm sensibilidade. Todas as razões para esquecer é um filme brasileiro e é um p*ta filme, porque depois que terminei fiquei um tempo respirando fundo e absorvendo tudo aquilo que assisti. 


A sensação de ver esse filme é parecido quando você toma uma bebida bem gelada em um dia quente e depois fica sentindo ela hidratar o seu organismo. A história foi construída em cima de um término de relacionamento e mostra todas as etapas que uma pessoa passa de uma forma bem leve e ao mesmo tempo te coloca para refletir sobre muitas coisas.


O filme se encontra disponível no catálogo da netflix até a data desse post.
As razões para se ver depois de um relacionamento é que nem todo final feliz é quando o casal fica junto, mas quando você fica bem consigo mesmo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A impossível faca da memória | Estante

Nome: A  impossível faca da memória.
Autora: Laurie Halse Anderson.
Editora: Valentina.
Páginas: 352 páginas.
Classificação:  

Sinopse: Hayley Kincain passou anos viajando de caminha na companhia de seu pai fugindo das lembranças que os assombravam. De volta a cidade natal de Andy, ela está indo para escola outra vez e na tentativa de ter uma vida normal. Convivendo em meio a depressão de seu pai os dias parecem ser só nebulosos e o cenário psicológico dele parece complicar todos os dias. Enfrentando seus demônio anteriores e convivendo com luto da perda de sua mãe, Hayley se enxerga perdida tentando fugir de suas memórias.

Após a morte de sua mãe, seu pai esteve em um cenário de estresse pós traumático por ser um veterano de guerra, sem tratamento e em negação sobre o seu estado emocional os papéis de pai e filha se invertem e a garota se vê perdida ao tentar ajudá-lo. Após retornar a sua cidade natal, reencontrar sua amiga de infância e apesar de não ter muitas lembranças recorrentes da garota sua amizade parece ocupar um espaço que está faltando na vida de Hayley, junto com ela o jovem Finn se aproxima da garota sendo levemente encantador e divertido deixando aquele cenário sombrio de sua casa e suas manhãs à caminho da escola mais leves e engraçadas.

A Hayley nunca estudou numa escola e quem sempre lhe deu aulas foi seu pai o que foi um impasse na sua adaptação escolar e que é narrada ao longo da história. Como a garota sempre passou sua vida viajando com seu pai que era caminhoneiro fazer planos para o futuro parece deixar tudo confuso, pois o amanhã a assusta mais do que qualquer outra coisa e sua orientadora tentando entender o que se passa com ela parece deixar tudo mais complicado ainda.

Minhas impressões:
Fazia tempo que não lia uma história tão diverta e encantadoramente dolorosa. A narrativa de Halse é repleta de dor e dá uma nova roupagem a tristeza existente em toda a história de Hayley que possui um humor ácido e um tanto quanto peculiar.  É uma personagem feminina extremamente forte, divertida e as cenas do livro são bem equilibradas. O enredo é bem atrativo e discuti muito sobre afeto, família e responsabilidade emocional. Tem um romance, mas ele é bem leve e é posto segundo plano, mas tem um destaque interessante o Finn é um personagem muito divertido e em todas as cenas que ele faz parte junto com a Hayley a química entre os dois personagens é inegável e naturalmente construída.

É importante ressaltar que esse livro pode conter gatilhos para depressão, transtorno de bipolaridade e estresse pós traumático. O pai da personagem é veterano de guerra existem várias cenas que podem vir a ser gatilhos ou facilmente impactadas por leitores mais sensíveis por conterem abusos de álcool e drogas. A forma como a história é narrada  pode não ser confortável para algumas pessoas porque a forma como a autora narra é bem específica e particular da sua escrita, os personagens são estruturados de acordo com essa narrativa o que não nos faz criar um laço com eles além do superficial e muito parecido com Fale! que é outro livro da autora em alguns sentidos de criação e estruturação.

No mais é uma boa história, bem construída e que contém clichês de outros livros jovem adulto, mas que não se perde ou se resume apenas neles o que é o diferencial da história e provavelmente o que me fez gostar tanto dela. 


Citações favoritas:

Família NÃO significa apenas uma unidade biológica composta por pessoas que compartilham marcadores genéticos ou vínculos legais, encabeçada por um casal heterossexual. Família é muito mais do que isso. Porque não estamos mais vivendo em 1915, entende?

A diferença entre esquecer uma coisa e não se lembrar dela é tão grande que dá para um caminhão passar entre as duas.

A alma dele ainda está sangrando. Isso é muito mais difícil de curar do que uma perna ferida ou uma concussão cerebral.

Meus pés pareciam enraizados na terra. Havia mais do que dois corpos enterrados ali. Havia pedaços de mim que eu nem sabia que estavam sob o chão.

Diga-lhe que é igualzinha à mãe. E que é forte o bastante para enfrentar o mundo.

Lá na borda, a rotação da Terra tinha diminuído para nos dar o tempo de que precisávamos para reencontrar um ao outro.

Não se pode fugir da dor, garota. Lute com ela e fique mais forte.

Eu fechara a porta para as lembranças porque doíam.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Melhores álbuns/EPs de 2019 | Playlist

Dois mil e dezenove foi um ano muito bom para a música nacional brasileira, já que o cenário tem crescido e consolidado vários nomes novos e resgatado outros que estavam meio fora de foco. Com o surgimento de cantores e bandas novas ampliando o celeiro musical o consumo de música via streaming também cresceu, pois apesar de youtube ser um grande parceiro na democratização do acesso a educação e cultura, ainda é importante para o mercado musical os números online adquiridos através de aplicativos geram dados relevantes a indústria.      

Imagem: Divulgação/Reprodução

Uma das bandas que teve destaque no passado foi, a Lagum, o grupo mineiro lançou sue primeiro álbum intitulado Coisa da geração, um manifesto público sobre os demais problemas da geração como ansiedade, efemeridade e dizer adeus. Com letras inteligentes e um bom humor, eles rodam o Brasil e até fizeram show em Portugal com o sucesso do álbum.


Imagem: Reprodução/Divulgação

A carreira da Manu Gavassi começou quando ela era bem jovem, desde então a cantora tem escrito músicas e emplacado até alguns sucessos, mas de longe ela vive sua melhor fase com seus dois últimos EP's com letras sinceras, arranjos e melodias mais maduros o último lançado CUT BUT (STILL) PSYCHO, trouxe uma Manu que os fãs estavam acostumados no começo da carreira, a sinceridade transpira de suas letras enquanto ela canta sobre os seus sentimento, nova fase a amadurecimento.


Imagem: Divulgação/Reprodução

Uma releitura de canções famosas do Nando Reis, sob novos arranjos e comentários feitos pela dupla num EP. N foi a primeira música que iniciou essa parceria durante a turnê dos namorados feita por Anavitoria junto com Nando. O disco é composto por 11 faixas contando com os comentários feitos na construção do mesmo. Logo, quando foi lançado se tornou um sucesso digital, já que os fãs das cantoras adoraram as novas versões.

Imagem: Divulgação/Reprodução

Com letras repletas de simbolismo e espiritualidade, Rito de passá de MC Tha, veio para quebrar as barreiras entre o sagrado, poético e a ancestralidade.  A mistura da música de terreiro com funk e um pouco de tecnobrega chegou para mostrar ao pop que ele pode se jogar em outro ritmos, ela já passeou por outros ritmos antes desse álbum que a consagrou como artista na cena musical que compões a geração da nova MPB. 

Imagem: Divulgação/Reprodução

O terceiro álbum da banda Zimbra, Verniz, bateu record de streaming logo na primeira semana de lançado. O disco é um trabalho que marca a nova fase da banda com letras que resgatam a essência de O tudo, o nada e o mundo primeiro álbum dos jovens santista e cria uma nova trajetória musical para banda com letras mais maduras e arranjos musicais singulares, pois apesar de beber a fonte do rock nacional a banda não é mercadológica e possui uma singularidade sem igual nas suas canções. 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Seria Bacurau um novo filme de Tarantino? | Manteiga de cinema

Imagem: Divulgação/Reprodução

Não, não vou ficar comparando um ao outro, mas essa foi uma pergunta levantada pelo meu amigo quando o filme terminou. Quem já viu os filmes do Quentin Tarantino sabe a referência de sempre conter muitas cenas de violência, mas essa marca seria só dele? Ficar comparando os diretores ou dizer que Kleber e Juliano seguiram a linha dele, tira totalmente a originalidade dos diretores brasileiros. A construção das narrativas e os temas abordados são totalmente diferentes. A abertura de Bacurau com vários caixões jogados na pista e um corpo exposto no acostamento deixa em evidência que o filme se trata de uma temática violenta, além do mais, possui um indicação para maiores de 16 anos. O filme se passa em um futuro não tão distante em uma cidade do interior de Pernambuco. Logo após a morte de uma figura bem conhecida do local, a população começou a reparar que coisas estranhas aconteceram, como o sumiço da cidade do mapa e a visita de pessoas desconhecidas.


Imagem: Divulgação/Reprodução

Mostrar cidades de interior nordestino na maior parte das vezes parece seguir um padrão: simples com pessoas desinformadas e "bobas". Kleber e Juliano seguem a linha do simples, mas quebram totalmente o estereótipo de inocência das pessoas. Quase toda a população de Bacurau possui celular e usufruem muito das tecnologias, o ensino na escola é bem avançado e tem muito incentivo do povoado. Outra cena que mostra em evidência é quando o prefeito chega na cidade e todos se escondem em forma de protesto pela sua péssima gestão.

 Uma marca também presente no filme é sua fotografia, no começo pode causar uma certa estranheza, mas depois o telespectador que já assistiu filmes antigos de faroeste entende a referência como as cenas são compostas.  Bacurau não trás somente uma história marcante, mas também uma reflexão pesada sobre o presente do nosso país, mesmo que os diretores alegam que não tiveram essa intenção, quem tem um mínimo de consciência não consegue sair do cinema sem ficar refletindo sobre todas as discussões que o filme aborda. 


Imagem: Divulgação/Reprodução

 A história é forte e envolvente, não trás um personagem principal, mas faz com que o telespectador se apaixone por todos os habitantes da cidade, fique vidrado com todos os acontecimentos que surgem, prende a respiração a cada momento de tensão e faz o coração vibrar com todas as conquistas. Bacurau não é somente um filme de violência, além do mais esse é o único ponto que o filme se cruza com os de Tarantino. Bacurau é marcante, um tapa na cara de quem diz que o brasileiro não sabe fazer filme e enaltece o Nordeste que por muitas vezes é colocado como figurante em nosso país. É uma obra original, impactante e um marco histórico para o cinema no Brasil.

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