Escritos: Pequena Grande Ponte.

   

    Faltava um pouco menos de duais horas para a meia noite e o festival parecia apenas começar. Liam olhou o relógio. Pessoas correndo, se divertido, bebendo e comendo, dançando, é o lugar perfeito para aqueles que querem sair de sua rotinha e sentir que vive de verdade. Mas mesmo aqueles que se permitiam não podiam gozar disso sempre. Não se pode fazer um festival todos os dias. Liam não sabia exatamente de quanto em quanto tempo o festival aparecia, só sabia que todas as vezes que esteve lá era dia de festival. Aquele lugar antigo ganhava cor e brilho.

    Liam já havia se divertira muito com seus amigos e mesmo assim não parecia o suficiente, mesmo com seu desejo de varar a noite com a pessoa que mais gosta de estar ao lado, tinha de partir. Sua aldeia era á mais longe de todas, era preciso atravessar três montanhas e a encosta de um morro íngreme. Ele tinha juízo. O próximo trote de pegasus sairia em alguns minutos, ele tinha de se apresar. Então, despediu-se do pessoal — Taylor, Been, Cami e Tomy — e o Adam, que sempre faz o trajeto com ele até o transporte, disse que ficaria por mais uma hora, mas o levaria ao PECA (Ponto de Encontro das Carruagens Aladas) e, como de costume, esperaria as carruagem azuis - Sopro Sentido Sul. Estava tudo bem para o Liam o Adam querer ficar com os amigos por um pouco mais de tempo, afinal, era ele quem morava longe e tinha que sair mais cedo. Os dois deram as mãos, soltaram duas pequenas chamas luminosas cada para o céu com um aceno a cima da cabeça — em agradecimento ao festival — e seguiram rua fora.

    Andaram por quinze minutos e a essa altura a claridão e a barulheira já estavam distantes. As ruas estavam iluminadas por linhas de luz prata já enfraquecidas por baixo do asfalto, como se por cima das linhas e dos paralelepípedos tivessem pisando em um chão vidro.  Liam adorava reparar como a luminosidade refletia tão bem nos cabelos levemente dourado de Adam. Era como reparar o seu modo especial de tratar cada planta do jardim submerso, como ele fica gracioso com o traje preto e branco de duelo mas não ficava ameaçador, era como saber o quanto ele gosta das pequenas criaturinhas que vivem nas minúsculas casinhas nas raízes das arvores das ninfas mesmo ele dizendo que não da a mínima — os olhos dele brilham.  Liam se sentia privilegiado em reparar os pequenos detalhes que os cercavam.

    Agora só faltavam atravessar uma pequena ponte a sua frente, de aproximadamente vinte metros, e andar por mais dez minutos. Do outro lado já se via pessoas embarcando na condução. Ao lado, um poste de madeira com quatro metros de altura emanava um fogo verde que pairava sem forma e distorce para cima, indicando que a carruagem ainda não partira. Quando chegaram a cabeceira da ponte Adam puxou Liam para mais perto e lhe deu um abraço apertado e afetuoso. Estava se despedindo. Ele iria voltar dali e Liam seguiria seu caminho.

— Você não vem? — Perguntou Liam um pouco surpreso. Eles sempre atravessavam juntos, eles sempre faziam esse caminho, eles sempre esperavam as carruagens azuis da PECA, eles sempre se abraçavam para se despedir do outro lado da ponte e não desse lado. Era o lado errado.

— Ah, não. Hoje te deixarei aqui. Certo?! — Falou ele de modo distraído. Claro que não estava certo. Poderia parecer uma besteira, mas para Liam não era. Estava frio, escuro e a ponte estava deserta. Sentiria- se mais confortável se ele estivesse atravessando comigo.

— Se cuida.  

— Você também. Quando na aldeia lança um Fulgor para mim, para avisar que está tudo certo.

— Pode deixar. — Os dois se abraçaram novamente e cada um seguiu um para um lado.

    Liam seguiu seu caminho com passos largos e pesados. Tentou pensar na tamanha besteira que era aquilo, em como já haviam feito aquele trajeto outras vezes e que uma vez só não faria mal, pensou também que talvez estivesse sendo egoísta e por isso tentou afastar qualquer pensamento. Foi inútil. Junto com os primeiros pensamentos veio às recordações que em nenhum dos festivais de sua vida voltara por esse caminho só, seja como acompanhante ou como acompanhado, seja como Adam ou sem ele. Também se lembrou de todas as vezes que tentava esperar as carruagens vermelhas Sopro Sentido Oeste e o Adam não deixava, sempre o protegendo e cuidando. A travessia da ponte durava em cerca de cinco minutos, mas a sensação de Liam era que já havia se passado quarenta. Parou de andar e tentou se situar. Olhou ao redor e ainda estava na metade da ponte. Olhou para trás, ninguém lhe esperava. Isso foi o suficiente para seu coração ficar apertado e prosseguir.


    Andou em silencio por alguns minutos. Não queria se deixar pensar. De uma coisa ele tinha certeza: Tinha raiva de um pensamento tão egoísta e tinha raiva de também ter razão, pois eram os seus sentimentos. Ele não se sentia bem, sozinho, naquela ponte e o Adam significa muito para ele. Os dois entendem isso. Andou mais um pouco e chegou à outra ponta da ponte. Ele se virou, mesmo querendo sair logo daquele lugar, e percebeu o quão longo foi atravessar aquilo só. Das outras vezes nem sentia quando chegava do outro lado. Dessa vez foi uma tortura.

    Liam estava encostado no poste de madeira que agora emitia um fogo vermelho vivo com a rapidez de um cilindro de oxigênio aberto a toda velocidade, sem emitir som algum. Era o sinal que daquele poste a condução já partira. Na espera do próximo perdeu-se em seus pensamentos e lembrou como o seu dia tinha sido bom e divertido. Comeu, bebeu e brincou muito. Até conjurara raízes forte o suficiente para derrubar a Cami no chão. Isso rendeu várias risadas. Ele começou a refletir se valeria a pena mesmo se apegar aquela maldita travessia e no que Adam fez sem ao menos perceber. Se isso mudaria alguma coisa entre eles era melhor esquecer. Era ele esquecer e tudo ficaria bem.

    Três horas depois ele chegou à aldeia, lógico, porque perdeu a primeira condução. Em seu quarto pegou um pedaço de pergaminho e segurou com a mão esquerda, com a direita pegou um punhado de um pó incolor e espalho-o no ar. O pó brilhava com o reflexo da iluminação do quarto de Liam. O elemento jogado ficou pairando em sua frente como se fosse mais leve que o ar. Ele sussurrou Adam Waters. Em seguida ouviu-se de volta a voz do Adam.

— Estou aqui! — Neste momento o ar onde estava o pó começou a pegar fogo, um fogo prata que emitia frio ao invés de calor. Liam jogou o pergaminho no meio do fogo e este pairou e ficou coberto pelas chamas.

— Você chegou bem em casa? — Falou Liam e as palavras apareceram no pergaminho. Em seguida o pergaminho saiu em disparada pela janela deixando o fogo para trás e ao mesmo tempo voltando. Ele veio e voltou tão rápido que o fogo não ficou sozinho por mais de dois segundos.

Dentro do pergaminho lia-se:

— Acabei de chegar. E sim, estou bem.

— Mas porque tão tarde já que mora mais perto? Saiu agora a pouco do festival? — As palavras ditadas por Liam tomaram o lugar das Adam. O pergaminho sumiu e reapareceu com a mesma rapidez.

— Não, não. Saímos mais cedo. Peguei as carruagens pretas Sopro Sentido Noroeste para levar o Been em casa, ele me pareceu um pouco estranho.

Isso pegou Liam de surpresa. Eram duas aldeias de distância do festival, não muito longe, mais para depois ele retornar a casa dele àquela hora da noite, é perigoso. Ele entristeceu quando se deu conta de que Adam atravessou duas aldeias pelo nosso amigo mais largado, que nunca ouvia ninguém e não atravessou a ponte com ele que, além de seu amigo, já tinham juramentado seu amor um pelo outro nos anéis de fada das velhas arvores do Bosque dos Sete Ciclos. Mais uma vez a maldita ponte lhe trazia pensamentos ruins. Ele se sentia mal novamente.  Liam calou-se. O pergaminho foi sem nenhuma palavra do Liam e voltou sozinho. Estava escrito:

— Você, mas do que ninguém, é a prova viva que às vezes os amigos não percebem o quanto precisam de nossa ajuda mais às vezes não se dão conta — ele se referiu ao meu modo de dar valor às amizades. — Vamos nos ver amanhã?

— Tudo bem. E claro, nos veremos sim. — Falou para o fogo e logo o pergaminho estava de volta.

— Então durma bem, meu bem. Muitas cores em fogo nos seus sonhos. — Lia-se no pergaminho.

— No seu também, Adam. Fire! — Dessa vez o pergaminho foi e não voltou mais, o fogo se apagou com um estalido.


    Nada disse faria tanto sentido se ele não gostasse tanto do Adam. Tudo isso não teria a menor importância. Entre estar certo e o egoísmo, os dois venciam e pareciam ser como a luz e as trevas, um não vive sem o outro. Talvez pareça mais fácil para nós, que estamos de fora, observar e apontar. Mas sentimento é uma coisa única e peculiar demais de cada pessoa. Não é para ser decifrada sempre. Se não fosse tamanha a inocência, ou quem sabe displicência com que Adam faz as coisas isso nunca sairia de seu coração. Mas tão leve quanto às fadas que lhe visitavam todas as manhãs para abençoar seus dias, suas aflições passaram. Ele percebeu que o mais importante era o crescimento num todo e não apenas naquela hora. Em um futuro talvez não muito distante eles dois estivessem mais preparados para lidar com esses tipos de problemas ou situações. Liam teve o tato de saber que não era o momento certo para por para fora e decidiu excluir isso de seu coração.

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